A guerra sem fim dos caça-vírus
Existem cerca de 70 000 pragas virtuais na rede, o dobro do que havia um ano atrás
Roni Katz, 29 anos, e Patricia Ammirabile, 24, são caçadores profissionais de vírus de computador. Os dois trabalham para a empresa americana Network Associates, que mantém uma equipe de cerca de noventa engenheiros espalhados por sessenta países com essa missão. De um escritório em São Paulo, eles comandam o combate às pragas virtuais na América do Sul. Roni é o responsável por fazer soar o alarme quando um novo vírus aporta num dos países da região. Patricia encarrega-se de capturar o vírus, colocá-lo sob observação e mandar informações para o laboratório central da Network, em Dallas, nos Estados Unidos. Produzir e combater vírus de computador transformou-se numa guerra planetária. Estima-se que tenham sido produzidos até hoje cerca de 70.000 vírus. O primeiro foi o Brain, nascido em 1986 no Paquistão. A cada dia são criados entre oito e dez vírus. Na trincheira oposta, a indústria responde com igual quantidade de antivírus. “É uma guerra sem fim”, diz Katz.
Na internet, ataques de vírus geralmente coincidem com datas importantes. Neste ano, no entanto, alguém resolveu comemorar o Natal em novembro e disparou por e-mail um arquivo chamado Navidad.exe. O arquivo continha um vírus capaz de procriar rapidamente na rede de computadores. Foi uma correria. Na base da Network no Brasil, mais de 500 chamados davam conta de sistemas que haviam sido infectados. O centro avançado da Symantec, outra fabricante de antivírus, nos Estados Unidos, recebeu cerca de 2 500 amostras do Navidad. Em poucas horas, novas vacinas foram distribuídas pelos fabricantes de antivírus, mas, ainda assim, centenas de empresas tiveram suas redes entupidas de mensagens de feliz Natal e travaram.
A guerra é mundial, incessante e só tende a recrudescer. Entre 1996 e 1999, o número de computadores infectados aumentou em 800%. O número de vírus conhecidos mais que dobrou em menos de um ano. Como as pragas naturais, os vírus também alimentam uma próspera indústria. O mercado de softwares antivírus não pára de crescer. Movimentou, em 1999, 1,2 bilhão de dólares e deve chegar a 2,7 bilhões até 2004, segundo o instituto americano International Data Corp. (IDC). A indústria do antivírus é rápida no gatilho. Em geral, demora entre duas e três horas para criar uma vacina.
A guerra muitas vezes invade a madrugada. Em maio deste ano, numa quinta-feira, às 3h30 da manhã, Roni Katz recebeu uma ligação avisando que um vírus perigoso se espalhava a partir do Leste Europeu. Katz participou de uma teleconferência com caça-vírus de todas as bases da empresa, anotou os procedimentos e ligou para cerca de dez clientes especiais, cujos contratos exigem que fatos como esse sejam comunicados na hora. A ameaça chamava-se LoveLetter, ou ILOVEYOU, o vírus mais devastador já surgido. Ele infestou cerca de 85 milhões de computadores pelo mundo em poucos dias. Especialistas dizem que as perdas chegaram a 8,7 bilhões de dólares. Cerca de 70% dos PCs da Alemanha, Holanda e Suécia ficaram inoperantes. O Parlamento inglês, o Congresso americano e até a CIA tiveram de desligar seus servidores.
A vida já foi mais difícil para os vírus. Nos anos 80, eles dependiam da troca de disquetes entre usuários para se espalhar. Nos anos 90, todos os usuários de internet se tornaram alvos. Primeiro, porque a praga se dissemina por e-mail. Segundo, porque a internet aproximou os criadores de vírus. “Há uma grande facilidade de acesso, por meio de fóruns, downloads e salas de bate-papo, ao conhecimento técnico de como criar um vírus”, diz Mikel Urizarbarrena, presidente da Panda, outra grande fabricante de antivírus.
Os vírus são pequenos programas que, para agir, precisam infiltrar-se nos computadores alheios e induzir alguém a acioná-los. Por isso, costumam chegar anexados a mensagens de e-mail, camuflados sob nomes inocentes. Ao clicar o arquivo, a vítima dispara o programinha, que passa a dar ordens ao computador. Existem quatro tipos: os que destroem arquivos e bagunçam o computador; os que apenas se reproduzem pela internet e geram um tráfego gigantesco capaz de derrubar servidores; os que roubam informações; e aqueles que só trazem uma mensagem inofensiva. Para impedir sua ação, os antivírus analisam cada arquivo que o usuário tenta abrir e comparam sua estrutura com as informações de sua biblioteca de vírus. Se o arquivo tiver semelhança com algum deles, o antivírus se encarrega de fazer a limpeza.
Ao contrário do que se imagina, os criadores de vírus não são maníacos anti-sociais ou terroristas. Estudos da americana Sarah Gordon, da IBM, mostram que eles são pessoas comuns, inteligentes, de classe média alta e com família e vida social normais. Segundo ela, os vírus são obra de estudantes e de gente com alto conhecimento técnico. Nos poucos casos em que se chegou ao criador, descobriu-se que não havia intenções claras de causar prejuízos, mas simples vaidade e busca por notoriedade entre membros de um grupo de amigos virtuais e hackers que se comunicam pelos porões da internet. “Um vírus geralmente nasce de alguém que quer brincar”, diz Marco Gubitoso, doutor em ciência da computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Gubitoso criou, em 1989, a vacina para um dos primeiros vírus a se espalhar pelo Brasil, o PingPong.
Como se proteger das pragas
Os endereços do antivírus:
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Fonte: Veja
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